Texto elaborado por: Carlos Roberto Serrão Haddad

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Sobre a terceira circulação de linfa

Em outro texto (Fibromialgia: críticas ao diagnóstico e à sindromização) comentei sobre a possibilidade de a fibromialgia (FM), uma síndrome dolorosa crônica e sem inflamação que oficialmente não se conhece a causa, não ser uma doença, mas um sintoma comum a várias doenças.

Comentei também que as diversas patologias que possuem a FM como sintoma em comum, possuem outra coisa em comum: a terceira circulação linfática prejudicada (a que circula junto aos ossos, tendões e cartilagens). Confiramos estas informações a partir de dois mecanismos: os da dor e os de nutrição de ossos e cartilagens.

1) Os mecanismos da dor

A FM é uma síndrome dolorosa. Estudemos a dor! A dor é uma sensação provocada por dois mecanismos diferentes, daí receber dois nomes: dor rápida e dor lenta.

Ambas as dores – a rápida e a lenta – possuem um trajeto neurológico do local da dor até o cérebro: após o estímulo da dor, o neurônio afetado passa um pulso elétrico em direção à coluna, o pulso passa por um forame (buraquinho entre ossos e cartilagens da coluna) para alcançar a medula e daí segue a regiões do cérebro. Em ambos os casos, após a passagem pelo forame e sinapse com a medula, bifurcam-se: um trajeto segue ao mesencéfalo em ambos os casos para referenciar o local da dor e um outro trajeto, o que dá a sensação da dor, segue ao tálamo e ao corpo caloso. A dor lenta tem cerca de 75% de seus pulsos finalizados no corpo caloso e a dor rápida tem 80% deles direcionados ao tálamo.

A dor rápida ocorre ao cortarmos a pele, queimá-la ou outros meios que destroem alguma estrutura orgânica enervada, mas não é o tipo de dor da FM. A dor lenta ocorre ao estimularmos os nociceptores, terminais nervosos em forma de espiral que só se manifestam por pressão ou por ácidos. É o tipo de dor relatada pelos fibromiálgicos: contínua e regularmente latejante ou pulsante.

No caso da FM, a dor é espontânea ou aparece a um toque muito leve. Ora sabemos que apenas pressão e ácidos estimulam estes terminais, logo, há a necessidade de haver a presença de ácidos para justificar a presença da dor. Mas sabemos que a FM é uma síndrome dolorosa e sem inflamação.

Temos então nossa primeira questão: a FM caracteriza-se por haver acidez (única possibilidade de acionar os nociceptores da dor lenta além da pressão) e, ao mesmo tempo, a FM é uma síndrome dolorosa e sem inflamação. Como pode isto ocorrer se o excesso de ácidos está por trás dos processos inflamatórios?

2) Sobre a terceira circulação linfática

Sobre a linfa: é um líquido imunológico branco e viscoso que se origina nos espaços intersticiais (entre as células) e tem seus próprios canais até desembocar em certos pontos da circulação venosa. A circulação linfática se dá através da pressão da musculatura, que aciona os linfângios (válvulas que dirigem esta circulação).

O sistema linfático representa uma via acessória ao sistema circulatório pela qual pode fluir líquidos dos espaços intersticiais para o sangue. Ele se estende por todo o organismo em forma de rede, iniciando-se pelos capilares linfáticos, que confluem para formar os coletores pré-nodais, daí aos pós-nodais, que seguem aos ductos linfáticos e, finalmente, desembocam no sistema venoso, ao nível da junção subclávia-jugular, onde a partir daí a linfa, já no sistema venoso, caminha para o coração.

O sistema linfático possui vasos superficiais e profundos. Os vasos superficiais localizam-se acima da fáscia muscular (tecido que envolve os músculos) e drenam os tecidos superficiais. Seu trajeto acompanha as veias e a drenagem é feita para os linfonodos superficiais e daí aos profundos, já dentro das fáscias. Já os vasos linfáticos profundos são pouco numerosos, localizam-se abaixo da fáscia muscular e são responsáveis pela drenagem de músculos, órgãos, vísceras e cavidades articulares, seu trajeto acompanha os vasos sanguineos profundos e sua drenagem se dá para os linfonodos profundos (Borges pg 346).

A drenagem linfática conhece bem tanto a circulação superficial quanto a profunda. Mas existe uma área fora da drenagem linfática manual. Há linfa fora das fáscias mas que não se encontra no tecido superficial: fica sob os músculos, nutrindo ossos e ligamentos! Sabemos que o movimento muscular a faz circular seja em direção ao tecido superficial os aos coletores profundos conforme a região, mas sua circulação é bem diferenciada. Por exemplo: a pressão regularmente utilizada para drenar a linfa superficial não tem efeito nela (a pressão se distribui pela área do músculo que cobre sua região, logo, para afetar esta linfa é necessário rever a força inicial).

Como a drenagem desta linfa corresponde a uma terceira possibilidade técnica e é praticamente um terceiro trajeto (já que conhecemos o trajeto superficial e o profundo), utilizo a alcunha de Terceira Drenagem para diferenciar os métodos voltados à circulação desta linfa, principal mecanismo de nutrição e eliminação de resíduos de ossos e cartilagens.

3) Sobre linfa no metabolismo de ossos e cartilagens

Sobre as cartilagens, tendões e outros tecidos miofasciais: podemos afirmar que são matéria viva e, portanto, consomem nutrientes e eliminam toxinas. Não são nutridas por vasos sanguíneos (não há artérias passando por elas), logo, não recebem seus nutrientes nem eliminam suas toxinas como os músculos e a pele: pelos vasos arteriais e venosos; apenas pelo líquido intertiscial.

Assim a terceira circulação de linfa torna-se a principal fonte de nutrição e eliminação de toxinas dos tecidos profundos. Apesar de ínfima.

Enquanto que em uma pessoa em repouso, o coração faz circular cerca de 5 litros de sangue por minuto à pressão normal de 120 mmHg, a circulação de linfa remonta apenas à 100 ml por hora (Guyton, pg 126). Isto quer dizer que, em uma hora, circula 100 ml de linfa e 30.000 ml de sangue em nosso organismo. Como os músculos, a pele e as vísceras possuem um metabolismo muito maior que os ossos, fica tudo bem. Quase sempre.

Cerca de 40% deste volume corresponde à linfa que vem das mucosas do sistema digestivo. O restante é associado ao resto do organismo: pele e músculos. Com o corpo em repouso, quase nada vem da linfa extraprofunda, daí as dores que são maiores ao acordar.

Solução

Temos então a solução da nossa questão sobre como pode haver excesso ácido na FM para justificar a dor sem que seja identificado um processo inflamatório. A acidez apenas na linfa extraprofunda, menos de 10 ml circulando por hora, é rapidamente diluída quando alcança a circulação de linfa (pelo menos 10 vezes seu volume) e que, por sua vez, se dilui 100 ml em cerca de 30.000 ml de sangue por hora.

Sobre as causas da Fibromialgia

Não precisamos ser um gênio para avaliar as verdadeiras causas da FM e especular como se fundamentam os principais recursos com eficácia neste mal. Bastaria avaliar seus supostos sintomas para concluir que somam problemas metabólicos ou com a circulação linfática. Mas deixemos isto para o texto Fibromialgia 3. Por ora, confirmemos apenas os dois principais fatos que estão por trás de todos os quadros fibromiálgicos: baixo metabolismo e problemas com a circulação linfática.

Baixo metabolismo

Creio que a principal característica dos quadros fibromiálgicos seja o metabolismo baixo em relação a outras fases da vida da pessoa. Várias coisas podem estar em questão, desde males genéticos, características no envelhecimento, alimentação e, principalmente, quadros emocionais.

Problemas com a circulação linfática

O grande sintoma dos quadros fibromiálgicos, a meu ver, seriam problemas com a circulação linfática ou, pelo menos, com a terceira circulação linfática. O organismo humano pode ter seus vasos obstruídos, sejam artérias, veias ou linfáticos; o entupimento de sangue arterial e venoso é largamente identificado, analisado e tratado; o mesmo não ocorre com a linfa extraprofunda; a pouquíssima literatura encontrada está distribuída em obras sobre drenagem linfática e o exame para detectar bloqueios na circulação linfática, a linfocintilografia, não é eficaz para detectar problemas com a linfa extraprofunda: este exame não mostra a circulação rente aos ossos no caminho aos vasos, mas da pele aos vasos, daí aos dutos e então à corrente venosa.

Você viu estas pesquisas?

Como são eliminados os resíduos metabólicos das cartilagens, tendões e ossos não vascularizados? Como se processam os bloqueios na ínfima circulação de linfa rente a ossos e tendões? Como desbloqueia-los?

Sabemos que as atividades físicas previnem males dos ossos, tendões e cartilagens. Que pesquisa mostra a importância da terceira circulação de linfa na promoção da Saúde?

Elas poderiam:

Ampliar e muitos os casos de cura da fibromialgia assim como substituir o uso de medicamentos antiálgicos nessa síndrome, com significativo salto na qualidade de vida das pessoas que sofrem deste mal.